(António Gil, in Facebook, 15/05/2026, Revisão Estátua)

A América acostumou-se a ser um Império que imprimia dinheiro e exportava medo. Mas o problema com os impérios é que um dia o medo muda de campo.
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Há menos de um ano Trump gritava com o Canadá, a Alemanha, e até com a China — impondo tarifas tresloucadas, vociferando ultimatos, acusando todo o mundo e arredores de saquearam a América. Portanto não há muito tempo, a América ainda esgrimia a linguagem da intimidação.
Agora é o mundo que começa a falar com a América como os parentes falam com um velho que decidiram internar num lar.
E Trump, o grande negociador, o “estratega genial” que prometeu “colocar a China no seu lugar”, o homem que acusava Pequim de “esbulhar a América sem pudor”, o aspirante a Führer que prometeu restaurar a grandeza e o domínio do seu país enquanto impunha medo e respeito aos outros, agora falou mansinho sem sequer ter levado um cacete grande, como aconselhava Teddy Roosevelt aos seus diplomatas (fala docemente mas leva uma moca avantajada, dizia ele).
E, no final, foi Xi Jinping quem delicadamente lhe comunicou uma mensagem simples: — Fiquem longe de Taiwan. Se cruzarem essa linha vermelha haverá traulitada da velha.
Foi ele quem mostrou a Trump o seu enorme cacete, em suma. Sem floreados diplomáticos, sem reverências, sem medo.
E a parte mais humilhante nem foi a mensagem em si, mas o tom.
Ninguém falava assim com o grande rufia do mundo. Falava-se assim com um fedelho traquinas a esticar-se demais: – Porta-te bem senão levas umas chineladas. O cheiro da fraqueza quase sempre é mais intenso do que o da força e foi o caso.
Hoje, a China explica abertamente a Washington os limites do que lhe é permitido fazer. E Trump engoliu em seco. Mas a sua irritação explodiu já a bordo do Air Force One, tomando como alvo um pobre jornalista a quem acusou de traidor, por não reconhecer aquilo que ninguém já reconhece: a vitória sobre o Irão.
Porque, por detrás de todos os gritos, ameaças e publicações histéricas EM MAIÚSCULAS nas redes sociais, uma realidade aterrorizadora emergiu: a América não tem cartas, como Trump gosta de dizer aos outros.
Nem economicamente, nem industrialmente, nem moralmente, nem mesmo tecnologicamente — porque fábricas, chips, metais de terras raras e metade das manufaturas globais já estão atrelados à locomotiva-foguete da China.
A América acostumou-se a ser um Império que imprimia dinheiro e exportava medo. Mas o problema com os impérios é que um dia o medo muda de campo.
E aí descobre-se que porta-aviões não produzem iPhones, F-35s não fabricam semicondutores e sanções contra o país que produz quase tudo — de baterias a indústrias inteiras – magoam quem precisa de importar tudo o que não tem.
Xi entendeu isso perfeitamente há muito tempo mas só o disse com esta veemência ontem. E por isso ele falou com Trump sobre “linhas vermelhas”, não mais como um igual mas como um credor que adverte um devedor falido.
Pela primeira vez em muitas décadas, um presidente americano está diante dos limites do poder americano. E Trump, que sonhava em entrar para a História como um novo Reagan – porque nem sequer entendeu ainda que foi o ator de westerns que deu o primeiro passo em direção ao declínio dos EUA, ao deslocalizar todas as indústrias americanas para a Ásia – arrisca-se a entrar nela como presidente da comissão liquidatária do Império.
E tudo isto quando os EUA se preparam para celebrar 250 anos como Nação (agora pouco) independente, com a pompa e circunstância que não raro acompanham a ruina que, de forma festiva, se pretende querer exorcizar.
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